De Bogotá a Belém: o que está em jogo para o futuro da Amazônia

Paisagem na Amazônia com vegetação e rio
Amanda Lelis/Acervo ACT-Brasil

OPINIÃO | “Hoje está claro: a agenda ambiental é uma agenda política. O que acontecer na Amazônia definirá não apenas o futuro climático, mas a estabilidade dos próprios países.”

Por Carolina Gil*

A Amazônia agora enfrenta uma encruzilhada histórica. Esse bioma concentra mais de 16 mil espécies de árvores, 50 mil plantas, milhões de fungos e 13% de todas as árvores do planeta. Mas sua riqueza não é apenas biológica: é também cultural e política, expressa na diversidade dos povos indígenas, em sua pluralidade linguística e na presença de cidadãos ativos que vivem, trabalham e defendem a região há décadas.

Mesmo assim, essa diversidade convive com pressões cada vez mais fortes: a mineração transnacional ilegal, alimentada por redes criminosas, avança sem parar e deixa um rastro de poluição e violência em rios e comunidades.

Declaração de Bogotá: avanços e omissões

De 18 a 22 de agosto, os oito países amazônicos se reuniram em Bogotá na Quinta Cúpula de Presidentes da OTCA, adotando a Declaração de Bogotá, com 35 compromissos.

Entre os avanços estão:

  • O reconhecimento do Mecanismo Amazônico de Participação Indígena (MAPI), que pela primeira vez concede um espaço formal aos delegados indígenas na governança regional.
  • O anúncio do Tropical Forests Forever Fund (TFFF), projetado para canalizar pagamentos diretos por hectare conservado.
  • O estabelecimento em Manaus de um centro internacional de cooperação policial contra crimes ambientais transfronteiriços.
  • O compromisso de chegar a uma posição amazônica comum na COP30 em Belém.

Esses são avanços que merecem ser celebrados. No entanto, a declaração deixou grandes lacunas: evitou assumir compromisso com a restrição aos combustíveis fósseis no bioma; não avançou rumo a uma OTCA social que integre povos e comunidades tradicionais e a sociedade civil; e ignorou perspectivas urgentes, como o enfoque One Health, além da participação efetiva de crianças e jovens.

Muitas Amazônias, não apenas uma

A Amazônia não é um bloco homogêneo: são muitas Amazônias, com diferentes povos, paisagens e resistências. Com exceção das Guianas, nenhum país amazônico tem sua capital no bioma: um sinal claro de colonialismo interno, onde o que acontece na floresta é decidido de longe.

Na Colômbia, a Amazônia ocupa 42% do território continental, mas continua sendo tratada como periferia nas prioridades nacionais. E, enquanto isso, as cidades amazônicas, hoje organizadas em uma rede regional, começam a reivindicar seu lugar na discussão. A pauta deve ser construída a partir dessa pluralidade: povos indígenas e povos e comunidades tradicionais, com sistemas de saberes desenvolvidos ao longo de milhares de anos, camponeses, mulheres, jovens, igrejas, academia, cidadania organizada e redes urbanas.

Colômbia: a agenda ausente

Na Colômbia, a situação é alarmante. A Amazônia está presa em uma violência reciclada: dissidência armada, economias ilegais, mineração predatória e disputas pelo controle territorial. E, no entanto, não há uma agenda nacional clara para lidar com essa deterioração. O vácuo de políticas coerentes expõe o bioma à deterioração acelerada, em um momento em que os alertas são mais evidentes do que nunca.

Da retórica à ação

A Declaração de Bogotá abre um caminho, mas o decisivo é ouvir os alertas já feitos por comunidades, redes amazônicas e centros de pesquisa, que há anos apresentam dados precisos sobre o risco do ponto de não retorno. Se não forem traduzidas em ações verificáveis, com financiamento real e prazos definidos, a declaração corre o risco de se tornar apenas mais um ritual retórico.

O desafio político

Hoje está claro: a agenda ambiental é uma agenda política. O que acontecer na Amazônia definirá não apenas o futuro climático, mas também a estabilidade dos próprios países. A região precisa de atenção prioritária, sem distinção de partidos ou cálculos eleitorais. E exige que a sociedade como um todo – cidadãos urbanos, setores produtivos, mídia, universidades, igrejas e jovens – deixe de olhar para a Amazônia como uma periferia distante e a assuma como o centro do debate sobre democracia, vida e humanidade.

*Diretora regional da Amazon Conservation Team Colômbia – escreveu este artigo de opinião, publicado em 27 de agosto de 2025 no El Espectador, jornal diário da Colômbia.