Mudanças Climáticas e Saberes Indígenas: uma perspectiva possível para adiar o fim do mundo
A raiz do problema não está na crise climática, mas numa crise espiritual com raiz colonizadora
Por Taily de Faria Marcos Terena

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP, tem sido já há algum tempo, senão desde o início, uma conferência que reproduz a colonialidade do mundo pela forma como as pessoas e a Terra são tratadas. Por ser uma conferência oficial das Nações Unidas, a COP tem a obrigação de seguir códigos mínimos de diplomacia, respeitando os chefes das nações por ela reconhecidas e os considerando como a voz principal de suas nações. Todavia, quando o tópico é meio ambiente, natureza e clima o número de especialistas e líderes tradicionais de nações que deveriam ser ouvidos triplica se considerados os verdadeiros representantes que vivem em seus territórios nas florestas, desertos e no gelo, mantendo vivo seu conhecimento por meio de suas ciências e tecnologias.
Os povos indígenas durante muitos anos[1] têm tentado alertar a sociedade não indígena sobre o perigo da forma como vivem e como esse comportamento pode e afetará toda a vida no planeta. Infelizmente, foi apenas quando a ciência ocidental reconheceu, em um relatório do IPCC (Painel Científico Para o Clima da Organização das Nações Unidas)², que os povos indígenas, apesar de serem apenas 4% da população mundial, protegem mais de 80% da biodiversidade de todo o planeta, que foi reconhecido que nós, povos indígenas e comunidades tradicionais, possamos ter a solução para a atual catástrofe climática. Uma crise que ficará pior com os anos se não fizermos algo.
De certo, seria pensar que as pessoas responsáveis hoje pelo equilíbrio da Terra, os que têm segurado a queda do céu[3], seriam aqueles protegidos com seus direitos garantidos de Bem Viver com segurança ou, que ao menos fossem conhecidos e reconhecidos pelo seu trabalho prestado a toda humanidade, ou talvez tivessem apoio para ampliar suas ideias e formas
de se relacionar com a Terra, para que tivéssemos sistemas e vidas saudáveis e assim reequilibrar a vida no planeta. Entretanto, estas pessoas são as que mais sofrem os impactos das catástrofes climáticas e estão na mira da violência humana, cega em busca da destruição do resto de vida ainda preservado com mineração, desmatamento, exploração de petróleo
e muita poluição. Precisamos entender que estamos reproduzindo a mesma violência colonial que aconteceu no passado, mas agora com outra roupagem e em maior escala. Só assim poderemos entender a raiz
colonial que permanece em nossa sociedade e que nos trouxe a essa emergência climática.
Ano passado, a COP 26 em Glasgow não foi diferente. Pela terceira vez consecutiva sendo sediada na Europa e com o contexto da pandemia da covid-19, as injustiças sociais para participar de uma conferência internacional de alto nível como essa ficaram ainda mais em evidência. Para os povos indígenas e para minorias vindas do hemisfério sul, as dificuldades não eram apenas de financiar a viagem (alto custo, tendo em vista a taxa de câmbio de suas moedas locais para a libra), mas também em relação às restrições da pandemia, considerando-se a discriminação racial para acessar a vacina, testes e também a internet. Tivemos parentes do
México, do Equador e do Brasil que foram proibidos de viajar ou porque tinham um número errado em seu formulário (mesmo que ainda pudesse ser editado online), ou porque carregavam itens tradicionais de seu povo
consigo porque a companhia aérea não acreditou em seu cartão de vacina, mesmo que fosse o original.
Ainda com as dificuldades encontradas no caminho e sem qualquer apoio do governo, o movimento indígena brasileiro, por meio de apoiadores e de suas próprias organizações, conseguiu levar a maior delegação indígena na sua história. Foram diversos povos, de diversos biomas, transmitindo denúncias das violações de seus direitos e de seus territórios e, também,
suas perspectivas e ideias para adiar o fim do mundo[4]. Além disso, foi também uma das maiores participações da juventude indígena global, um grande marco nessa conferência, que há alguns anos não permitia
que jovens entrassem e participassem das reuniões.
Junto ao coletivo de mulheres pelo clima e parentes de todo o mundo, fomos levar a esse espaço não apenas a nossa capacidade de ciência e tecnologia que poucos reconhecem, mas também a nossa espiritualidade, que é essencial num ambiente como esse que tem se distanciado do seu propósito principal: discutir sobre o Bem Viver da Terra, dos povos e
dos outros seres. Enquanto humanidade, não devemos buscar soluções apenas para os humanos. Precisamos centralizar nossa perspectiva em busca do Bem Viver para o ser humano e para todos os seres viventes.
Quando falamos que os povos indígenas são os mais impactados pelos prejuízos, também temos que lembrar das outras espécies no mundo inteiro sofrendo e vivendo com ameaças de extinção.

A COP foi criada para ser o espaço onde diferentes representantes da sociedade se reunissem para discutir soluções para as necessidades urgentes da Terra e para que ainda pudéssemos viver em harmonia com
ela. No entanto, a conferência continua a reproduzir o sistema colonial, perdendo o seu propósito e se tornando um grande encontro para negociar e gerar lucro em cima de vidas e do meio ambiente. Ao invés de dar voz àqueles que têm conhecimento para evitar a catástrofe no mundo, ainda estamos presos às grandes negociações encabeçadas por alguns “brancos
de gravata” que decidem a vida de muitos com base apenas em seus bolsos. É a “conferência dos poluentes” como Tom Goldtooth, ancião indígena do povo Diné, comentou. As soluções apresentadas não buscam mudar o sistema em que vivemos e que nos trouxe a esse colapso. São apenas outros meios de usar a Mãe Terra para alimentar nossas necessidades irreais com falsas soluções que não trazem os resultados que a Terra espera e precisa, como é o caso do crédito de carbono. O ser humano criou falsas demandas para viver e, agora, busca falsas soluções para sobreviver.
Como humanidade, não estamos conversando sobre as mesmas soluções. Se eu penso só em compensar o ar poluído, sem refletir e buscar soluções
para o que de fato está poluindo, não vou alcançar a mudança justa e necessária. Se eu penso em usar a tecnologia com drones para fazer chuva, eu não estou alterando a lógica do problema, pois para produzir esse drone eu ainda vou precisar de materiais vindos da extração e processo de materiais naturais. Porque vamos usar uma máquina se, ao plantar uma
árvore, a água e os animais vêm? Então, é como se não estivéssemos falando a mesma coisa: queremos soluções, queremos alternativas, mas ainda não estamos conectados com quem precisamos dialogar: a Mãe Natureza. Não devemos tentar encontrar soluções para manter esse sistema de exploração, de vida descartável e de recursos limitados. Precisamos primeiro chegar a um acordo sobre qual é a raiz dessa catástrofe, caso contrário, continuaremos falando em falsas soluções totalmente opostas às necessidades da Terra e, portanto, às nossas reais necessidades.
Muitos pesquisadores e especialistas afirmam que a emergência climática é resultado do sistema de produção em que vivemos, do capitalismo em si, outros dirão que é do antropocentrismo, outros que são questões políticas e até mesmo causas naturais. Sim, eles estão corretos em pensar que essas questões contribuem. Entretanto, nenhuma delas é a verdadeira raiz do problema. Por séculos, a humanidade caminhou na direção da ciência ocidental baseada na tecnologia e na razão como conhecimento único, abandonando a conexão com nossa espiritualidade, com a Mãe Terra e com os demais seres do planeta. Vivemos, atualmente, o problema do “mono”, onde há apenas uma forma de ver e viver o mundo.
Para nós, a verdadeira raiz do problema é a crise espiritual que a humanidade está enfrentando. Quero enfatizar que não estou falando de religião, mas da nossa relação com o sagrado em nós mesmos e na Terra. Sobre como estamos sentindo nossas emoções e como estamos lidando com nossa saúde espiritual, psicológica e física. Não é à toa que, nos últimos anos em que a catástrofe climática intensificou, os problemas relacionados à depressão, suicídio, pobreza e outros aspectos psicossociais também aumentaram. O sistema que estamos vivendo promove o desapego de nossos sentimentos, sensibilidades e a desconexão com os demais seres. Para nós, que conhecemos e mantemos viva essa relação, ver outros povos cegos pelo capitalismo e distanciados da nossa relação enquanto parte de um ecossistema, sentimos a responsabilidade com o planeta de fazer com que nossos irmãos (filhos da mesma Mãe Terra) possam ver e sentir novamente esta conexão. A relação com a nossa Mãe é o que nos faz caminhar para frente e pensar numa perspectiva de futuro que seja saudável, justo e equitativo.
O nosso espírito está doente, a nossa alma está doente. Enquanto não pudermos nos perceber nesse processo e entender o que nos causa essa dor, o que nos causa essa doença, não vamos conseguir encontrar solução. Unindo os conhecimentos sobre esses dois mundos, do purutuya[5] e o nosso kopenoti[6] é que vamos encontrar verdadeiras soluções possíveis para gerar as mudanças que esperamos no planeta.
Então, vamos a estas conferências com dois propósitos principais: primeiro, despertar as pessoas desta normose para reconhecerem a verdadeira raiz do problema, levando a nossa própria voz e falando por nós mesmos, como detentores do conhecimento para um mundo alternativo que preserve o ambiente e promova a filosofia do Bem Viver para todas as criaturas do planeta. Existe um ditado que diz “Se você não está sentado na mesa para comer, você é o menu”, e historicamente fomos deixados de lado nas conferências e reuniões de tomada de decisões importantes que afetam diretamente nossas vidas e territórios, sem ter direito a consulta livre prévia informada. Segundo, mostrar diferentes perspectivas possíveis “para salvar o planeta” que não se baseiam na proposta de manutenção desse sistema como está. Infelizmente, todo esse processo precisa de tempo e o tempo não está a nosso favor agora. Estamos fazendo mudanças a nível local, pequenas ações em todo o mundo, mas precisamos pedir uma resposta global. Precisamos mudar o sistema nos dois sentidos, no nível micro e macro. Precisamos entender que qualquer semente faz diferença na floresta, mas quando temos muito mais gente plantando, a floresta cresce muito mais rápido.
Talvez possamos dizer que alcançamos bons resultados quanto à questão indígena na COP, ano passado. Tivemos a aprovação do plano de trabalho trienal da Plataforma dos Povos e Comunidades Locais, a menção de nossos direitos no documento final das recomendações e mais uma vez o reconhecimento por parte do IPCC, porém não são metas suficientes se queremos evitar as mudanças climáticas e realmente reduzir a temperatura para 1,5°C. Não adianta avançar um tópico para um grupo específico se não avançarmos a discussão para todos globalmente. Devemos caminhar juntos, seguindo o princípio de não deixar ninguém para trás.
A COP ainda é uma conferência importante para participarmos, embora tenha se desviado de seu objetivo principal. É importante ter mais indígenas nesses espaços para fazer as pessoas lembrarem de nossa existência e para que o sistema ONU e os próprios governantes criem mais espaços como esse para diálogos. E, então, aí está a diferença: não vamos mais negociar, vamos dialogar sobre as possibilidades sem a tentativa de hierarquizar os poderes. Todos são relevantes, o governante, o diplomata e o indígena. Este deve ser um círculo de diferentes saberes, compartilhados
ao mesmo tempo para alcançar o Bem Viver de todos e não mais de apenas alguns. Os mais velhos já fazem essa caminhada há muito tempo. Estiveram presentes quando esse movimento foi iniciado, na Eco92, no Rio de Janeiro,
Brasil. Há pouco tempo indígenas não tinham espaço de decisão. Vamos a estas reuniões não porque queremos, mas porque precisamos. É porque eu
preciso continuar a luta da minha avó, é porque preciso continuar a luta do meu pai. É porque se eu não continuar, vocês vão passar de nós, vão passar por cima das árvores, vão passar por cima dos nossos territórios, vão passar por cima das pessoas que estavam ali enterradas, por cima dos nossos ancestrais.
Convidamos as organizações que trabalham com povos indígenas e em seus países a se envolverem mais nesse processo, a apoiarem mais. Temos
uma oportunidade muito grande de ter mais incidência internacional e apoiar parentes a chegarem num espaço como esse, a terem voz ativa, própria e de incidência, a contribuir para que as pessoas tenham um novo olhar, que pensem de uma nova maneira. Mesmo que as reuniões oficiais tenham deixado a desejar, foi bonito ver depois de dois anos de duras restrições de distanciamento, as pessoas reunidas, trabalhando, conectando-se e, ainda que um pouco perdidas, lutando por essa transformação.
Nos faz lembrar do que é mais importante: que não estamos sozinhos, que onde formos no mundo existirão pessoas trabalhando pelo bem do planeta, elas só precisam ser conhecidas e reconhecidas. É com essa nossa diversidade, sensibilidade e empatia que encontraremos o remédio para curar a Terra do patriarcado, do capitalismo e do egocentrismo
humano. Só assim alcançaremos soluções reais. Até chegarmos a esse ponto como humanidade, continuaremos trabalhando para não deixar ninguém para trás. Nem uma pessoa, nem uma árvore, nem um animal e nem uma gota de água. Mesmo que custe nossas vidas, como vem acontecendo desde que nosso povo se conheceu em 1.500.
REFERÊNCIAS
1 Ver, por exemplo, a carta do Chefe Seattle de 1885.
SEATTLE, C. Carta do Cacique Seattle para o presidente americano. Biblioteca Curt Nimuendajú FUNAI, 1885. Disponível em: http://biblioteca.funai.gov.br/media/pdf/ Folheto43/FO-CX-43-2698-2000.pdf. Acesso em: 1 maio 2022.
2 RCA, Rede de Cooperação Amazônica. Resposta dos Povos Indígenas ao Relatório do IPCC, 2019. Disponível em: https://rca.org.br/2019/08/resposta-dos-povos-indigenas-ao-relatorio-do-ipcc/. Acesso em: 1 maio 2022.
3 KOPENAWA, Davi. ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
4 KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Editora: Companhia das Letras, 2019
5 Palavra em Terena para “branco”, não indígena.
6 Palavra em Terena para indígena.
TAILY DE FARIA MARCOS TERENA é do povo Terena, cientista social e antropóloga pela Universidade de Brasília. Taily cresceu entre os debates e lutas pelos direitos dos povos indígenas do Brasil e hoje é ativista pela
causa. Em sua trajetória, atuou em algumas organizações indígenas como o Conselho Nacional de Mulheres Indígenas e, atualmente, é a diretora-presidenta da ACT-Brasil, onde colabora nos diálogos com os parceiros
institucionais, no estabelecimento de diretrizes programáticas e em temas como território, direito indígena internacional, mudanças climáticas, preservação e manutenção da cultura tradicional e mulheres indígenas.
Esse artigo foi publicado originalmente na primeira edição da Revista WANAKI, acesse em https://brasil.amazonteam.org/publicacoes.

