Toda restauração começa com uma semente

Conheça o Projeto Agrobiodiversidade no Tocantins, iniciativa que reúne restauração produtiva, saberes indígenas e proteção dos territórios.
Restaurar um território é muito mais do que recuperar uma área degradada. É proteger as águas, fazer a biodiversidade florescer, fortalecer a produção de alimentos e garantir que quem ainda está por vir encontre territórios ricos em vida, biodiversidade, cultura e memória.
Para os povos indígenas, a restauração vai além da recuperação da vegetação. Ela fortalece sistemas de conhecimento que, há gerações, orientam o cuidado com o território e a relação com a natureza. Significa proteger sementes, manejar a biodiversidade, manter vivos os sistemas agrícolas tradicionais e garantir a continuidade de modos de vida que unem cultura, produção de alimentos e conservação biocultural.
Para Indiarrury Cãn Krahô, liderança do povo Krahô (Mēhī) e integrante da equipe técnica da ACT-Brasil, restaurar um território é também cuidar do futuro.
Quando cuidamos do território, estamos cuidando da nossa própria vida e do futuro das próximas gerações. – Indiarrury Cãn Krahô
É dessa compreensão que nasce o Projeto Agrobiodiversidade no Tocantins: Restauração Produtiva e Proteção dos Territórios Indígenas, executado pela ACT-Brasil em parceria com povos Krahô (TI Kraolândia), Krahô-Kanela (TI Mata-alagada) e Ãwa/Avá-canoeiros (TI Inãwébohona) e com apoio do Fundo Amazônia/BNDES e gestão da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS).
A iniciativa integra restauração produtiva, fortalecimento da agrobiodiversidade e valorização dos conhecimentos tradicionais, reafirmando que a conservação biocultural só é possível quando a biodiversidade e a diversidade cultural são protegidas de forma indissociável, com os povos indígenas como protagonistas da gestão de seus territórios.
Mas, afinal, o que é agrobiodiversidade?
Muito além da diversidade de espécies cultivadas, a agrobiodiversidade reúne sementes, variedades tradicionais, conhecimentos, práticas de manejo e formas tradicionais de cultivo desenvolvidas ao longo de gerações. Nos territórios indígenas, ela sustenta a produção de alimentos, fortalece a segurança alimentar, contribui para a conservação biocultural e mantém vivos os saberes que orientam o cuidado com a terra.
Quando as sementes encontram os territórios

Ao lado dos povos Krahô, Krahô-Kanela e Ãwa/Avá-Canoeiro, o projeto desenvolverá, ao longo dos próximos quatro anos, ações de restauração produtiva construídas a partir das características ambientais, dos conhecimentos tradicionais e das formas de manejo próprias de cada território. Nesse período, serão restaurados cerca de 300 hectares por meio de técnicas adaptadas a cada contexto, combinando espécies nativas, sistemas agroflorestais e soluções construídas em diálogo com as comunidades indígenas.
Mas o projeto vai muito além do plantio.
A restauração é importante porque cuida da terra, cuida do solo, garante nossa segurança alimentar, nosso solo saudável, nossa geração de renda e, assim, nossa qualidade de vida, reforça Cãn Krahô.
Na prática, isso significa investir na formação de pessoas, fortalecer as cadeias da restauração ecológica, incentivar a bioeconomia local e criar oportunidades para que as próprias comunidades conduzam e mantenham esses processos ao longo do tempo, ampliando sua autonomia e contribuindo para a proteção de seus territórios.
Essas ações fazem parte do Restaura Amazônia, iniciativa do Fundo Amazônia, gerida pelo BNDES, criada para apoiar projetos de restauração ecológica e sistemas agroflorestais nos estados que integram o chamado Arco da Restauração: Acre, Amazonas, Rondônia, Mato Grosso, Tocantins, Pará e Maranhão. Além da recuperação da vegetação, o programa promove benefícios como a conservação da biodiversidade, a proteção dos recursos hídricos, a melhoria da qualidade do solo, a remoção de carbono da atmosfera e o fortalecimento de atividades econômicas sustentáveis.
Quando um território floresce, o futuro também brota
No Projeto Agrobiodiversidade no Tocantins, restaurar significa muito mais do que devolver vida à paisagem.
Cada área recuperada representa uma oportunidade de fortalecer a agrobiodiversidade, ampliar a segurança alimentar e nutricional, valorizar os conhecimentos tradicionais e reafirmar o protagonismo dos povos indígenas na conservação dos territórios e no enfrentamento das mudanças climáticas.
É também por isso que o projeto foi concebido de forma participativa, intercultural e territorializada, reconhecendo que as melhores soluções nascem do diálogo entre diferentes conhecimentos e do respeito às formas próprias de organização e de cuidado com o território.
Ao longo da execução do projeto, acompanharemos histórias, aprendizados e experiências construídas coletivamente junto aos povos. Mais do que registrar resultados, queremos compartilhar os caminhos percorridos, dando visibilidade às pessoas, aos saberes e às iniciativas que fazem da restauração um processo vivo.
Porque toda transformação começa com uma semente.
E, quando essa semente é cultivada por quem conhece profundamente seu território, ela também faz brotar autonomia, diversidade, alimento, cultura e futuro.
Indiarrury Cãn Krahô encontra nos ensinamentos de seu avô a semente desse futuro:
“Eu sempre ouvi do meu avô que a terra é nossa mãe. Cuidar dela é garantir o futuro para os nossos netos.
