Plantação de saberes: sementes Krahô circulam entre aldeias e fortalecem a alimentação nos territórios

Foto: Acervo ACT-Brasil

Projeto do PAA Sementes reúne 26 agricultores e agricultoras indígenas e prevê a distribuição de 22,2 toneladas de sementes tradicionais para até 1.100 famílias  

Na aldeia Maravilha, no território Krahô, no Tocantins, a agricultora e guardiã de sementes Generosa Iprêp Krahô assinou o primeiro contrato do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), na modalidade Sementes, destinado a agricultores e agricultoras indígenas no estado. A iniciativa marca uma nova etapa para a circulação de sementes tradicionais entre as aldeias, com a previsão de distribuir 22,2 toneladas. A experiência também dialoga com ações desenvolvidas pela ACT-Brasil junto aos povos Krahô para fortalecer a agrobiodiversidade, a produção de alimentos e a proteção dos territórios.

A proposta do PAA reúne 26 agricultores e agricultoras Krahô fornecedores de sementes e prevê a aquisição de aproximadamente 22,2 toneladas de sementes tradicionais, com um investimento total de R$ 382 mil. O projeto foi apresentado à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), pela Associação Me Hempej Xá, em 2024 e chega agora à fase de contratação e execução.

Segundo informações da equipe envolvida na iniciativa, este é o primeiro projeto de PAA Sementes destinado a agricultores e agricultoras indígenas no Tocantins. A proposta foi organizada pela Associação Me Hempej Xá, responsável pela articulação dos 26 fornecedores, enquanto a Associação Hotxwá, da aldeia Manoel Alves, ficará à frente do recebimento e da distribuição das sementes.

A previsão é que as sementes sejam organizadas em kits de 20 quilos, que serão distribuídos para até 1.100 famílias da região. Dessa forma, o projeto cria um caminho para que variedades cultivadas pelos Krahô continuem circulando entre as aldeias, sendo plantadas, multiplicadas e compartilhadas.

Sementes que carregam saberes  

Para o povo Krahô, guardar sementes também significa manter conhecimentos e formas próprias de cultivar os alimentos que fazem parte de seus modos de vida. Essas práticas perpetuam as variedades em suas roças e, somadas a inserção no PAA Sementes, criam uma oportunidade para que esse patrimônio continue circulando no território.

Ao cuidar e cultivar sementes desde a adolescência, Generosa é uma das agricultoras que mantêm vivas variedades e conhecimentos compartilhados entre as aldeias. Para ela, a possibilidade de distribuir sua produção para outras comunidades é motivo de esperança.

“Eu fiquei muito interessada em distribuir minhas batatas-doces para outras aldeias. É muita alegria. Eu sempre lutei desde os 15 anos até agora para ir melhorando no cuidado com as sementes.” – Generosa Iprêp Krahô

A agricultora conta que nunca precisou comprar no comércio ramas de batata-doce para seu cultivo. Diante do novo incentivo, outras aldeias interessadas em plantar poderão receber esse material diretamente de uma guardiã que vem cuidando e multiplicando essas variedades ao longo da vida.  

“Eu mesma nunca fui no comércio comprar uma rama de batata-doce nem a própria batata-doce. E agora, além da batata-doce, vou entregar outros alimentos, como o gergelim.” – Generosa Iprêp Krahô

Além da batata-doce e do gergelim, o programa contempla manivas de mandioca, favas, milho, arroz, cará entre outras sementes, mudas e materiais propagativos cultivados pelos agricultores e agricultoras. A expectativa é que, ao chegarem a outras famílias, esses materiais possam voltar a ser plantados e multiplicados, fortalecendo a diversidade dos cultivos e a produção de alimentos no território.  

A agricultora e guardiã de sementes, Generosa Iprêp Krahô. Foto: Acervo ACT-Brasil

Uma rede para circular as sementes  

A construção da iniciativa envolve uma rede de organizações e parceiros, como a ACT-Brasil, que atua em parceria com as organizações Krahô no fortalecimento da produção e da circulação de sementes e outros materiais propagativos nos territórios, em diálogo com o Projeto Agrobiodiversidade no Tocantins: Restauração Produtiva e Proteção dos Territórios Indígenas.

Executado pela ACT-Brasil em parceria com os povos Krahô, Krahô-Kanela e Ãwa/Avá-Canoeiro, o projeto conta com apoio do Fundo Amazônia/BNDES e gestão da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS). A iniciativa integra restauração produtiva, fortalecimento da agrobiodiversidade e valorização dos conhecimentos tradicionais, incluindo a implantação de sistemas agroflorestais e ações voltadas à produção de alimentos.

“O Projeto Agrobiodiversidade no Tocantins tem um diálogo direto com a inserção da coleta de sementes do povo Krahô no PAA. As duas iniciativas dialogam e se retroalimentam por meio do protagonismo indígena no compartilhamento de sementes e alimentos para fortalecer a segurança e a soberania alimentar e nutricional nos territórios.” – Abilio Vinicius, Analista de Campo e ponto focal do Projeto na ACT-Brasil.  

Nesse contexto, a parceria envolve o apoio à distribuição e ao transporte das sementes, à identificação de agricultores e agricultoras que já produzem sementes e mudas e à busca por novos produtores e produtoras que possam também participar. O trabalho ainda contempla sementes, manivas e mudas que poderão contribuir para ampliar a diversidade das roças tradicionais e fortalecer a produção local com futuras áreas de cultivo em sistemas agroflorestais e quintais produtivos previstos pelo projeto.  

“A ACT-Brasil tem construído essa parceria junto com as comunidades, a Embrapa, a Funai e outros parceiros. Os dois projetos têm tudo a ver pois fortalecem nosso modo de viver, de plantar, de conservar as sementes e de cuidar do território. É uma caminhada importante para a soberania alimentar e para o futuro.” – Indiarrury Cãn Krahô, liderança do povo Krahô (Mēhī) e integrante da equipe técnica da ACT-Brasil.

Nesse processo, a análise das sementes e a emissão dos laudos necessários ao projeto envolvem a Embrapa, em articulação com as instituições responsáveis. O fortalecimento dessa parceria no Tocantins também poderá tornar mais ágil esse processo para os próximos contratos.  

Para Maria dos Anjos, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a assinatura dos contratos representa o resultado de uma trajetória construída ao longo de diferentes etapas e articulações. 

“É uma conquista importante porque valoriza as sementes tradicionais do povo Krahô e os seus guardiões e vai fortalecer a produção de alimentos saudáveis e a segurança alimentar.” – Maria dos Anjos (Fundação Nacional dos Povos Indígenas – Funai)

Jovens Krahô e equipes da ACT-Brasil, Embrapa e FUNAI. Foto: Acervo ACT-Brasiil

Sementes que geram renda e fortalecem o território  

Ao mesmo tempo em que amplia a circulação de sementes tradicionais, o PAA Sementes cria uma possibilidade de geração de renda para agricultores e agricultoras que cultivam, selecionam e guardam essas variedades. Cada fornecedor poderá comercializar até R$ 14,7 mil em sementes no âmbito do projeto, fazendo com que recursos também circulem entre as famílias e organizações envolvidas na produção.  

Para a ACT-Brasil, essa dimensão se conecta ao fortalecimento de iniciativas construídas nos próprios territórios:

“Ao ampliar a rede de produtores e produtoras, apoiar o transporte e a circulação de sementes, mudas e manivas e fortalecer quintais produtivos e sistemas agroflorestais, a parceria contribui para criar condições para que a diversidade agrícola se mantenha e se amplie.” – Vinicius.  

Assim, o PAA Sementes se soma a outras iniciativas de produção e comercialização construídas pelos Krahô, fortalecendo caminhos para que os alimentos e os recursos relacionados à agricultura permaneçam circulando nos territórios.  

A iniciativa coloca em circulação alimentos, conhecimentos, renda e formas de cuidar da agrobiodiversidade. Das roças dos agricultores e agricultoras que guardam essas variedades, as sementes seguem para outras aldeias, mantendo vivos os saberes associados a elas, fortalecendo a produção de alimentos e ampliando as possibilidades de cultivo nos territórios Krahô.  

“Vejo que, no futuro, as sementes recebidas e distribuídas pelo PAA Sementes poderão ser plantadas em sistemas tradicionais ou agroflorestais . É uma caminhada importante para a soberania alimentar e para o futuro no território.”  Cãn Krahô.

Leave a Comment





This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.