Histórias Miranha: o renascimento vivo de uma identidade

Uma travessia pelo presente, passado e futuro no Território Ancestral Miranha

 Por: Odenilze Ramos*

 Edição: Méle Dornelas (ACT-Brasil)

O que define um povo indígena? Sua língua, seus rituais, seus modos de vida, sua relação com o território? Quem estabelece esses critérios — e a partir de qual lugar? Os impactos que um povo sofreu em sua língua materna devido à violência colonial são suficientes para descaracterizá-lo, mesmo quando este povo segue protegendo seu território, sustentando seus saberes e afirmando sua existência?

A identidade indígena se constrói na língua, mas também na memória, na história, na tradição, na cultura, nos modos de organização e nos saberes transmitidos entre gerações. Ela vive no corpo, no território e nos gestos cotidianos, mesmo quando atravessada por rupturas, silenciamentos e imposições externas. Não é justo — nem verdadeiro — definir um povo apenas pelo língua ou por estereótipos cristalizados a partir de uma visão colonizada do que é ser indígena.

É dentro dessas reflexões que se insere a história do povo Miranha, presente na Amazônia brasileira e colombiana, cuja trajetória é marcada por deslocamentos forçados, separações familiares e interrupções profundas, mas também por resistência e continuidade.

Um povo em encontro e reencontro com sua identidade

Miranha ou Pɨnemuna (como eles se autoidentificam) é um povo ancestral cuja história antecede as fronteiras nacionais entre Brasil e Colômbia. Antes dos mapas e das divisões impostas, seu território era compreendido como circulação, caminho e rede viva de parentesco, especialmente nas bacias transfronteiriças do Japurá–Caquetá.

No final do século XIX e início do século XX, no que hoje é Brasil, Colômbia e Peru, o ciclo da borracha atingiu duramente esse povo. Muitos Miranha foram capturados, levados aos seringais, separados de suas famílias e submetidos ao trabalho forçado. Outros fugiram, rompendo, sem escolha, a continuidade territorial e linguística. A imposição do português e espanhol, associada à presença da escola, da igreja e do trabalho forçado, violentaram o povo Miranha e sua língua. Escondê-la foi, muitas vezes, uma estratégia de sobrevivência.

Ainda assim, os Miranha nunca deixaram de existir. Mesmo sem o domínio fluente da língua, seguiram afirmando sua identidade nos modos de viver, no cuidado com o território, na relação com o rio e a floresta, e na transmissão de saberes guardados na memória coletiva.

Na Colômbia, parte do povo manteve a língua viva, assim como os cantos, os bailes, os rituais e as formas próprias de organização. Em ambos os lados da fronteira, a memória da violência permaneceu, assim como a certeza da resistência: continuar sendo Miranha.

Após mais de um século de separação, esse fio da história começou a ser novamente costurado. Em novembro de 2024, com apoio da Amazon Conservation Team (ACT), do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), ocorreu o primeiro intercâmbio entre famílias Miranha dos dois países, realizado na Comunidade São Pedro, na Terra Indígena Cuiú Cuiú (AM), no Brasil. Em dezembro de 2025, o segundo reencontro aconteceu no território ancestral Miranha, em Porto Remanso del Tigre, na Colômbia.

As vivências ali presenciadas não foram apenas de um intercâmbio cultural, mas a retomada de uma história que atravessa gerações. É a confirmação de que aquilo que foi separado à força ainda pulsa. O segundo intercâmbio, ocorrido entre 4 e 12 de dezembro de 2025, ampliou a compreensão acerca da constituição da identidade de um povo, dando continuidade ao processo iniciado no primeiro encontro.

O 2º reencontro Miranha: um mergulho na ancestralidade

Intercâmbio de saberes Miranha. Foto: Odenilze Ramos/Acervo ACT-Brasil

Quando a comitiva do Brasil chegou ao território ancestral Miranha, na Colômbia, carregava mais do que o cansaço da viagem: trazia expectativas, perguntas e silêncios. O primeiro contato não se deu pela palavra, mas pelo som. Antes de qualquer apresentação, o território falava — a língua, os animais, os grilos, o bater das panelas organizando a noite. Como disse um dos mais velhos, “parece silêncio, mas não é. O mundo está falando o tempo todo”. Ali, o som não era ruído, mas presença. Estávamos na Amazônia. Estávamos em casa.

Foram dias de conversas, caminhadas, rituais, partilhas de memória, colheitas e bailes, nos quais ficou evidente que a ancestralidade Miranha segue viva. Ao ouvirem os relatos dos parentes brasileiros, os mais velhos colombianos reconheceram suas próprias histórias; e, ao presenciarem a língua, os cantos e os bailes, os Miranha do Brasil sentiram pertencimento, não distância.

Um dos momentos mais simbólicos foi a escolha de nomes tradicionais para os Miranha do Brasil. Nomear, nesse contexto, não é gesto simbólico, mas político e espiritual: é reinscrever alguém em uma linhagem viva, atribuir responsabilidade e afirmar pertencimento. Dar nome é resistir ao apagamento histórico.

Como destacou Israel Miranha, tuxaua da Comunidade São Pedro/Brasil: “Não viemos resgatar uma língua morta. Viemos fortalecer uma língua viva, falada por parentes vivos”. O fortalecimento da língua ficou claro como algo que não acontece apenas na escola, mas no cotidiano: na casa, na roça, no baile, na conversa e na escuta.

Os visitantes também puderam acompanhar alguns “mambeadeiros”, momentos coletivos nos quais os homens, auxiliados por suas companheiras, se sentam em roda e consomem o mambe – preparação tradicional de folhas de coca torradas e moídas com cinzas de imbaúba – e o ambil – uma pasta de tabaco e sal vegetal. No mambeadeiro se reflete sobre questões do cotidiano comunitário relevantes para a comunidade e para o mundo. Foi no mambeadeiro que se compreendeu que o fortalecimento da língua está inseparavelmente ligado ao fortalecimento da vida comunitária.

Preparação do mambe. Foto: Odenilze Ramos/Acervo ACT-Brasil

Durante o intercâmbio, o debate sobre o registro da língua, dos cantos e das histórias também ganhou centralidade. Registrar não é gesto neutro: envolve cuidado, compromisso e responsabilidade com o que é vivo. Se antes gravar era visto com desconfiança, hoje surge como necessidade, sem romper a relação entre quem fala e quem escuta. Como alertaram os mais velhos, a tecnologia não pensa; cabe às pessoas garantir que o registro não retire a palavra de seu território e de sua cosmologia.

A juventude também mostrou ter papel central no processo de fortalecimento da identidade, afinal, como disse uma das lideranças, “é por eles e pelos que ainda virão”. Durante o baile Miranha que encerrou o 2º intercâmbio, Vito (Lázaro), representante da juventude Miranha do Brasil, participou ativamente, aprendendo cantos, observando passos e dançando não como espetáculo, mas como pertencimento. Sua participação revelou o papel fundamental da juventude na continuidade da cultura.

O baile, por sua vez, evidenciou que a cultura Miranha permanece viva nos territórios ancestrais. Ele não foi apenas celebração, mas tecnologia ancestral de organização da vida, pois exige preparo, cuidado e responsabilidade. O dono do baile não manda: cuida. O tabaco circula, o mambe circula, a palavra circula. Cada canto tem tempo, propósito e origem. Encerrar o reencontro com esse rito foi uma decisão política e espiritual, pois é nele que o corpo aprende junto, a memória se ativa e a coletividade se sustenta.

Ao final, não ficaram respostas fechadas, mas caminhos: produzir materiais para as escolas, promover novas trocas, aproximar jovens, trazer falantes, criar estratégias coletivas para que a língua volte a circular no cotidiano. Esse processo é político, histórico e afetivo.

Nada do que foi vivido pode ser chamado apenas de viagem. Foi o reencontro de famílias separadas há séculos. Um movimento de retorno, reconstrução e futuro que se faz com os pés no presente e os ouvidos atentos ao que os mais velhos ainda têm a dizer.

A história do povo Miranha não terminou quando os caminhos foram rompidos. Ela apenas mudou de forma. E agora, ao ser contada novamente, não pede conclusão, mas continuidade.

Viva a retomada do povo Miranha!

Leave a Comment





This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.