Alimentos temperados pela memória

Mulheres Yanomami realizam oficina sobre alimentação ancestral
Cerca de 60 mulheres Yanomami de diferentes comunidades reuniram-se em Maturacá, uma comunidade Yanomami localizada no Alto Rio Negro, no estado do Amazonas, para uma oficina dedicada à valorização da alimentação ancestral do povo Yanomami. A atividade foi uma iniciativa da Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK) e reuniu indígenas de várias gerações em um espaço de troca de conhecimentos, memórias e práticas tradicionais ligadas à comida.
Durante os encontros, as participantes refletiram sobre o papel da alimentação tradicional na saúde, na cultura e na continuidade dos modos de vida indígena. Para elas, fortalecer a comida ancestral é também fortalecer o corpo, o território e os saberes transmitidos entre gerações.
Como resultado da oficina, as mulheres Yanomami começaram a elaborar um livro bilíngue (yanomami–português), com receitas, histórias de origem dos alimentos, relatos e ilustrações produzidos coletivamente. Para a Analista de Campo da ACT-Brasil com foco em mulheres e saúde indígena, Lirian Ribeiro, o evento foi um momento de articulação e fortalecimento das mulheres, a partir da sabedoria ancestral presentes na alimentação e nos modos de vida dos povos.
“A oficina de alimentação ancestral foi um momento de profunda conexão com a força das mulheres e com a memória viva de seu povo. A iniciativa fortalece a Associação Feminina Kumiraoyama e o papel das mulheres na produção e transmissão de conhecimentos sobre a comida e a cultura Yanomami. Cada alimento preparado e cada palavra compartilhada revelavam a relação entre o feminino, a terra e a memória.” – Lirian Ribeiro, analista de campo da ACT-Brasil.
Saberes que vêm das anciãs
Ao longo da oficina, as mulheres compartilharam lembranças e conhecimentos sobre alimentos que formam a base da alimentação ancestral Yanomami. Entre eles estão frutos e produtos tradicionais como açaí, bacaba, banana, pupunha, taioba, beiju e farinha, além dos alimentos vindo com a caça de animais silvestres e a cata do caranguejo.
Muitos desses saberes são preservados principalmente pelas mulheres mais velhas, que transmitem às mais jovens não apenas receitas, mas também os modos de preparo, os momentos certos de coleta e os significados culturais associados aos alimentos.
Esse processo de transmissão é fundamental para manter vivos os conhecimentos que estruturam a relação do povo Yanomami com a floresta, o território e o cuidado com a saúde. Segundo Carlinha Yanomami, esses saberes ancestrais revelam a profunda conexão entre corpo, território, memória e modos de vida. Dessa forma, a oficina fortaleceu esse sentimento de continuidade e de vida que se mantém vivo por meio da memória e do conhecimento das mulheres Yanomami.
“Quando falamos do nosso conhecimento, estamos falando de memória e de vida, porque somos um povo vivo. A expressão Yamaki Temi inclui o humano, a floresta e o rio, porque Yamaki é plural, não é individual — somos nós, junto com a biodiversidade. Na tradução para o português, alguns dizem que Yamaki Temi significa ‘ainda estamos vivos’, mas eu não gosto desse ‘ainda’. Para nós, significa simplesmente ‘nós somos vivos’. Não queremos dizer que nós, mulheres, ainda estamos vivas — queremos afirmar que somos vivas. Na nossa língua, essa palavra viva é Yamaki Temi”- Carlinha Yanomami.

Alimentação, saúde e equilíbrio
Durante os debates, as mulheres também apontaram preocupações com mudanças recentes na alimentação das comunidades. A presença de alimentos industrializados nas merendas escolares, como sucos artificiais e ultraprocessados, impacta a saúde física, cultural e territorial.
Segundo elas, o enfraquecimento do corpo e o aumento de doenças são sinais de um desequilíbrio que precisa ser enfrentado. Além disso, percebe-se o aumento do lixo nas comunidades devido às embalagens plásticas desses produtos da indústria. Nesse contexto, valorizar a alimentação ancestral foi apontado como um caminho importante para fortalecer a saúde coletiva e territorial, além de recuperar práticas tradicionais de cuidado.
Produção coletiva de textos e desenhos
A oficina também foi um espaço de criação. As participantes trabalharam em grupos na produção de textos em língua Yanomami — posteriormente traduzidos para o português — e na elaboração de desenhos autorais que representam práticas alimentares e conhecimentos tradicionais.
Esses registros fazem parte de um processo coletivo de sistematização dos saberes compartilhados durante o encontro e simbolizam a memória ancestral sobre as práticas de alimentação que fortalecem e promovem o bem-viver dos modos de vida Yanomami.
Um livro para fortalecer memória e saúde comunitária

Como resultado das reflexões, as mulheres iniciaram a elaboração de um livro bilíngue (yanomami–português), que reunirá receitas, histórias das origens dos alimentos, relatos e ilustrações produzidos coletivamente. O lançamento está previsto para 2027.
Mais do que um registro, o livro nasce como um instrumento de fortalecimento cultural e como uma estratégia de promoção da saúde comunitária. A publicação busca valorizar práticas alimentares tradicionais e fortalecer a transmissão desses conhecimentos entre gerações.
A construção do livro reafirma a centralidade dos saberes das mulheres na vida coletiva. São elas que guardam receitas, histórias, cantos e modos de preparar a vida — conhecimentos fundamentais para a continuidade cultural dos povos indígenas.
“O livro que nasce desse processo é mais do que um registro de receitas: é um símbolo de memória, afetividade e saberes que atravessam gerações” – Lirian Ribeiro.
Articulação e parcerias
O encontro, realizado em articulação com lideranças e mulheres das comunidades e com a facilitação da consultora indígena Josi Ticuna, foi promovido pela Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK) e contou com o apoio de diversas organizações parceiras, como a União das Mulheres Indígenas da Amazônia (UMIAB) e a Coordenação Regional da Funai de São Gabriel da Cachoeira/AM.
“A UMIAB se sente feliz e honrada em participar deste momento tão importante sobre alimentação ancestral junto às mulheres Yanomami. É uma oportunidade de nos aproximar, ouvir as demandas das mulheres e incentivar sua participação no ATL e na Marcha das Mulheres, mas, principalmente, de apoiar suas pautas de saúde, educação, cultura e sociobioeconomia” – Marinete Tukano (UMIAB).
Alimentação é resistência e futuro
As Yanomami mostraram que promover a memória alimentar é uma prática não só de cuidado, mas também de resistência e responsabilidade com os saberes passados e com o futuro a ser construído. Em cada prato preenchido com receitas de açaí, pupunha, taioba, beiju e tantas outras riquezas da terra estará também a memória coletiva das Yanomami, bem como um território fortalecido e mulheres em práticas de bem-viver.

