ATL 2026: Povos indígenas ocupam Brasília e reforçam protagonismo político diante de desafios climáticos

O ATL 2026 reuniu cerca de 7 mil lideranças indígenas em Brasília/DF. Foto: Méle Dornelas/Acervo ACT-Brasil

O Acampamento Terra Livre 2026 reuniu cerca de 7 mil lideranças indígenas em Brasília durante os dias 5 a 10 de abril, reafirmando seu papel como a maior mobilização indígena do país e um dos principais espaços de incidência política dos povos. Organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o encontro mobilizou representantes de diferentes biomas e territórios em defesa de direitos, da demarcação das terras indígenas e do reconhecimento do protagonismo indígena no enfrentamento à crise climática.

Em um contexto ainda marcado por ameaças aos territórios, retrocessos legislativos e violações de direitos, o ATL 2026 foi também um espaço de construção coletiva, articulação política e fortalecimento de agendas estratégicas, com destaque para a proteção de povos indígenas isolados e de recente contato, a saúde, a educação e enfrentamento às violências contra as mulheres e o protagonismo das juventudes.

Atuação da ACT-Brasil fortalece participação indígena e incidência política

A ACT-Brasil esteve presente ao longo de toda a programação, apoiando diretamente a participação de 120 lideranças indígenas de mais de 20 povos. Entre as delegações apoiadas estiveram representantes do Xingu (MT), do Alto Solimões (AM) e de outras regiões da Amazônia, incluindo povos como os Kokama (SM), os Avá-Canoeiro (TO), autodenominados Ãwa, e as Yanomami (RR) da associação Kumirayoma, além do apoio direto a União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMIAB).

A organização acompanhou e contribuiu com debates centrais do ATL, incluindo rodas sobre povos indígenas isolados, tema crítico diante do avanço de pressões sobre territórios protegidos, e discussões sobre a saúde da mulher indígena, evidenciando a necessidade de políticas públicas culturalmente adequadas e construídas com participação direta das mulheres.

Outro destaque foi a participação na comemoração dos 16 anos da UMIAB, realizada em 9 de abril, que incluiu a certificação do ciclo formativo de lideranças femininas da rede. A iniciativa, apoiada pela ACT-Brasil e outros parceiros, vem fortalecendo a atuação política de mulheres indígenas na Amazônia. O momento simbolizou avanços concretos na formação e articulação dessas lideranças, que representam os nove estados da Amazônia brasileira.

Foto: Méle Dornelas / Acervo ACT-Brasil

Marcha reafirma força do movimento indígena  

A grande marcha pelas ruas de Brasília foi um dos momentos mais emblemáticos do ATL 2026, reunindo milhares de indígenas em uma mobilização que ecoou vozes de todo o país. A ACT-Brasil esteve presente ao lado das lideranças, reforçando seu compromisso com a luta pela garantia de direitos e pela proteção dos modos de vida.  

A mobilização reafirma que não há solução para as crises climática e socioambiental sem o reconhecimento dos povos indígenas como protagonistas, uma pauta amplamente defendida durante o encontro, que também denunciou os impactos da expansão de atividades ligadas a combustíveis fósseis sobre os territórios e o clima.  

Marcha ATL 2026. Foto: Ricardo Londoño / Acervo ACT-Brasil

Comunicação indígena e juventude como estratégia de resistência  

Durante o ATL, a ACT-Brasil também promoveu uma roda de diálogo com comunicadores indígenas, reunindo mais de 30 jovens de diferentes territórios. A atividade teve como objetivo fortalecer a comunicação como ferramenta de defesa territorial, incidência política e valorização cultural.  

Os diálogos também revelaram a comunicação como importante instrumento de luta e incidência, permeada e sustentada pela troca de saberes entre os mais velhos e a juventude

 “Antes nossos avós lutavam com a flecha e a borduna; hoje, para nós jovens, nossa arma é a comunicação.” – Atatakumã Suya, jovem liderança do Território Indígena do Xingu.

 “A gente pauta muito nossa comunicação a partir do que ouvimos e aprendemos com as mais velhas, elas orientam nossa ação.” – Luara Sapará, comunicadora indígena da UMIAB

A iniciativa dialoga com o crescente protagonismo das juventudes no campo da comunicação, apontado como estratégico por diversas articulações indígenas.  

Roda de Diálogo com Comunicadores Indígenas durante o ATL 2026. Foto: Acervo ACT-Brasil

Avanços e desafios: saúde e direitos das mulheres indígenas  

O ATL 2026 também foi marcado por um avanço importante no campo dos direitos das mulheres indígenas: a sanção da lei que institui o Dia Nacional de Combate à Violência contra Mulheres Indígenas, celebrado em 5 de setembro.  

A medida representa um reconhecimento institucional da gravidade da violência enfrentada por mulheres indígenas no Brasil, incluindo formas específicas como o etnofeminicídio. Lideranças destacaram que o avanço ocorre em um contexto alarmante, o que reforça a urgência de políticas públicas efetivas e culturalmente adequadas.  

Poucos dias antes do ATL, outro movimento relevante no campo da saúde indígena também marcou esse contexto de incidência política: a publicação da Portaria GM/MS nº 10.676, de 2 de abril de 2026, que reconhece os especialistas das medicinas indígenas no âmbito do sistema público. A medida foi recebida como uma conquista importante, resultado de uma luta histórica por valorização dos sistemas próprios de cuidado.  Para Gracimar Lins Yanomami, a portaria responde a uma demanda antiga das comunidades:  

“A gente sempre cobrou essa valorização para os nossos pajés, parteiras e raizeiros. Já cuidamos do nosso povo há muito tempo, mas sem reconhecimento. Agora, com essa conquista, vamos ver se esse respeito vai acontecer de fato.” – Gracimar Lins Yanomami

Ao mesmo tempo em que é celebrada, a medida também levanta questionamentos sobre sua implementação, especialmente diante da ausência de garantias concretas de apoio, financiamento e integração com as políticas de saúde.  

Esse debate dialoga diretamente com o conceito de “Uma Só Saúde”, ao evidenciar que, nos territórios indígenas, a saúde não pode ser dissociada da proteção do território, da biodiversidade e dos modos de vida. 

Foto: Méle Dornelas / Acervo ACT-Brasil

Incidência institucional e articulação com o poder público  

Além das atividades no acampamento, a ACT-Brasil esteve junto às lideranças indígenas em agendas de incidência política em espaços institucionais, incluindo articulações com o Ministério da Cultura e FUNAI. Esses encontros reforçam a importância do diálogo direto entre povos indígenas e o Estado na formulação de políticas públicas, além do fortalecimento de agendas que vão desde a proteção territorial até o reconhecimento de saberes tradicionais. 

Um exemplo desse movimento foram articulações conduzidas por delegações indígenas, entre elas, do povo Kokama, junto a diferentes órgãos públicos, com avanços em pautas como educação intercultural, demarcação territorial e fortalecimento da organização comunitária. Essas iniciativas evidenciam o ATL como um espaço que projeta agendas para além da mobilização, com desdobramentos concretos nos territórios.  

Um espaço estratégico, ações contínuas  

Embora o ATL siga como um espaço fundamental de mobilização e conquista de avanços, lideranças indígenas e organizações apontam que os desafios permanecem estruturais. A garantia dos direitos territoriais, a proteção de povos isolados e o enfrentamento à violência contra mulheres indígenas ainda demandam ações contínuas, recursos e compromisso político.  

Esse posicionamento se reflete também na carta final do encontro, divulgada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), que reafirma a defesa de territórios livres de exploração e denuncia os impactos de atividades econômicas sobre os modos de vida indígenas. O documento destaca a oposição à expansão de projetos ligados a combustíveis fósseis e reforça que a proteção dos territórios é condição indispensável para enfrentar a crise climática.  

O ATL 2026, nesse sentido, reafirma não apenas a força do movimento indígena, mas também a urgência de respostas concretas do Estado brasileiro, com participação efetiva dos povos na construção dessas soluções. 

“É aqui que fortalecemos nossa luta e nossas demandas, pela terra, pela saúde, pela educação, e mostramos que o povo indígena está vivo, firme e resistindo. Muitos dos nossos direitos já estão na Constituição, mas ainda não são respeitados. Sem essa mobilização, estaríamos mais enfraquecidos. É essa união que nos dá força para seguir cobrando e defendendo nossos territórios.” – Eládio Kokama, liderança do Alto Rio Solimões (AM). 

Foto: Méle Dornelas / ACT-Brasil

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