Do território ao debate global: “Uma Só Saúde” conecta saberes indígenas e políticas públicas

O debate global sobre clima, saúde e desenvolvimento tem apontado, de forma cada vez mais consistente, para a necessidade de reconhecer sistemas de conhecimento que já existem nos territórios. Espaços internacionais como o Skoll World Forum, realizado entre 21 e 24 de abril de 2026, na Inglaterra, reuniu lideranças, organizações e iniciativas de diferentes partes do mundo para compartilhar soluções voltadas a desafios sociais e ambientais complexos. O encontro é hoje uma das principais plataformas globais dedicadas à inovação social, conectando experiências locais a agendas internacionais de impacto.  

Nesse contexto, a Amazon Conservation Team (ACT) tem contribuído para o debate ao levar a perspectiva de “Uma Só Saúde”, destacando o papel central dos povos indígenas na construção de respostas integradas às crises climática, ambiental e sanitária.  

A partir do diálogo com iniciativas de outros continentes, a ACT reforça um ponto essencial: soluções mais eficazes passam pelo envolvimento direto das comunidades locais.  

“O que vemos em diferentes regiões é que as estratégias mais consistentes de ‘Uma Só Saúde’ partem do protagonismo das comunidades, seja no uso de tecnologias, no monitoramento territorial ou na construção de soluções próprias” – Luiz Cláudio Silva, diretor executivo da ACT-Brasil, durante painel no fórum.  

Luiz Cláudio Silva durante painel no Skoll World Forum. Foto: Acervo ACT/Brasil

A saúde está profundamente conectada com a cosmologia indígena, que conecta pessoas, natureza e espiritualidade. Essa compreensão vem sendo ampliada nos debates internacionais. 

Um avanço recente no Brasil 

No Brasil, esse debate ganhou um marco importante com a publicação da Portaria GM/MS nº 10.676/2026, que reconhece especialistas das medicinas indígenas no âmbito do sistema público de saúde. 

A medida representa um avanço ao reconhecer pajés, parteiras e outros especialistas definidos pelas próprias comunidades, respeitando seus modos de organização e transmissão de saberes. 

A organização acompanhou e contribuiu com debates centrais do ATL, incluindo rodas sobre povos indígenas isolados, tema crítico diante do avanço de pressões sobre territórios protegidos, e discussões sobre a saúde da mulher indígena, evidenciando a necessidade de políticas públicas culturalmente adequadas e construídas com participação direta das mulheres.

Para Gracimar Yanomami, da aldeia Maturacá, esse reconhecimento responde a uma demanda construída ao longo de gerações: 

“Meu povo ficou muito feliz com essa notícia. A gente sempre cobrou essa valorização dos nossos pajés, das parteiras, dos raizeiros. Nós já cuidamos do nosso povo há muito tempo, mas nunca fomos reconhecidos pelos governantes e pelas equipes de saúde. Agora, com essa conquista, vamos ver se esse respeito vai acontecer de fato.” – Gracimar Yanomami 

Saberes vivos e desafios atuais 

Para lideranças, o fortalecimento das medicinas indígenas caminha junto com os desafios contemporâneos enfrentados nos territórios. 

Demétrio Tiriyó, conselheiro da ACT-Brasil e liderança do povo Tiriyó, da Terra Indígena Parque do Tumucumaque, destaca que a valorização desses saberes também envolve preparar as comunidades para lidar com novas realidades de saúde: 

“Estamos contentes com essa portaria, porque fortalece nossa medicina tradicional. Hoje, estamos formando novos especialistas para trabalhar com plantas medicinais nas comunidades. Mas também enfrentamos doenças que vieram com o contato, como diabetes e pressão alta. Por isso, estamos preparando nossos jovens para atuar em parceria com a saúde não indígena, sem deixar nossos conhecimentos acabarem.” – Demétrio Tiriyó

A fala evidencia que esses sistemas de cuidado são dinâmicos, articulando saberes ancestrais e estratégias contemporâneas sem perder sua base territorial e cultural. 

Demétrio Tiriyó. Foto: Méle Dornelas/Acervo ACT/Brasil

 Entre reconhecimento e implementação 

Apesar de representar um avanço, a portaria também explicita limites importantes. O reconhecimento dos especialistas não implica, por si só, sua integração efetiva ao Sistema Único de Saúde (SUS), nem garante financiamento, proteção dos saberes ou mecanismos claros de articulação institucional. 

Esse cenário revela uma tensão recorrente: o reconhecimento institucional avança, mas ainda há desafios concretos para sua implementação nos territórios. 

Um debate que ultrapassa fronteiras 

A experiência brasileira dialoga com um movimento mais amplo, no qual diferentes regiões do mundo vêm reconhecendo que enfrentar as crises contemporâneas exige ir além da integração superficial de sistemas, e avançar no reconhecimento efetivo de conhecimentos historicamente marginalizados. 

Nesse sentido, fortalecer as medicinas indígenas é também fortalecer os territórios e, com eles, algumas das respostas mais consistentes às crises climática, ambiental e de saúde que marcam o presente. 

Produtos das Medicinas Indígenas. Foto: Acervo ACT-Brasil

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