O que aprendemos ao ouvir a Amazônia 

O “Ecos Bioculturais”, evento promovido pela ACT-Brasil, reuniu diferentes vozes durante a Semana do Meio Ambiente para debater os desafios climáticos e os caminhos para o futuro da Amazônia 

Em meio à programação da Semana do Meio Ambiente, Brasília recebeu nesta segunda-feira (2) o evento Ecos Bioculturais, realizado pela Amazon Conservation Team Brasil (ACT-Brasil) no SESI Lab, em Brasília. O encontro reuniu lideranças indígenas, pesquisadores, representantes da sociedade civil, órgão públicos e parceiros institucionais para dialogar sobre os desafios enfrentados pela Amazônia em um contexto de emergências climáticas e sobre os caminhos construídos nos territórios para proteger a floresta e fortalecer seus povos.

A programação teve como destaque a roda de saberes “Caminhos para a Amazônia diante das emergências climáticas”, mediada por Luiz Claudio Silva, da ACT-Brasil, e com a participação de Rita Potyguara (FLACSO Brasil); Mariazinha Baré (APIAM); e Arnaldo Carneiro (ORA).

Ao longo da conversa, diferentes perspectivas se encontraram em torno de uma reflexão comum: a Amazônia não é apenas um território estratégico para enfrentar a crise climática global, mas também um espaço de produção de conhecimentos, práticas e experiências capazes de inspirar respostas mais integradas para os desafios do presente e do futuro.

Reflexões para os caminhos da Amazônia 

Entre os temas debatidos esteve a necessidade de reconhecer os povos indígenas como protagonistas das soluções para a crise climática. A coordenadora-geral da APIAM, Mariazinha Baré, destacou que as respostas para os desafios ambientais passam pelo fortalecimento dos territórios, dos conhecimentos tradicionais e das ciências indígenas, frequentemente invisibilizadas por modelos eurocêntricos de produção de conhecimento.

Em sua avaliação, ainda existe uma disputa de narrativas na qual os conhecimentos indígenas são frequentemente desconsiderados, apesar de sua contribuição histórica para a conservação da biodiversidade e para a compreensão dos ecossistemas amazônicos.

Ao alertar para os impactos cada vez mais visíveis das mudanças climáticas, Mariazinha lembrou que “quando um rio seca, ele não volta mais”, chamando atenção para os efeitos da emergência climática sobre a vida das populações amazônicas. Para a liderança, é fundamental combinar estratégias de mitigação e adaptação construídas com os povos indígenas, reconhecendo que muitas das respostas para os desafios atuais já existem nos territórios e nos modos de vida que historicamente contribuem para a conservação da floresta.

Da esquerda para a direita: Arnaldo Carneiro, Mariazinha Baré, Rita Potyguara e Luiz Claudio Silva.
Foto: Ronald Kokama/Acervo ACT-Brasil

A diretora da FLACSO Brasil, Rita Potyguara, reforçou a importância dos conhecimentos ancestrais produzidos a partir da observação e da convivência com os territórios. Segundo ela, a leitura da floresta constitui uma ciência construída ao longo de anos e que precisa ser reconhecida como parte legítima da formulação de políticas públicas e estratégias de enfrentamento da crise climática.

Rita destacou ainda que esses saberes permanecem vivos e atuais, oferecendo ferramentas para compreender as transformações ambientais e construir respostas mais conectadas aos territórios.

A leitura dos rios, das florestas e dos ciclos da natureza é uma ciência construída por gerações. Quando esses conhecimentos são reconhecidos nas políticas públicas não apenas como complementares, mas como formas legítimas de conhecimento, revelam caminhos mais conectados aos territórios. Rita Potyguara (FLACSO Brasil)

Já Arnaldo Carneiro, coordenador do Observatório Regional Amazônico (ORA), destacou que a emergência climática deixou de ser uma projeção futura e passou a fazer parte da realidade amazônica. Em sua avaliação, os impactos sobre os rios, a segurança hídrica e os meios de subsistência das populações locais demonstram que os desafios da Amazônia possuem repercussões que ultrapassam os limites da floresta e afetam diferentes regiões do continente. Segundo ele, a redução dos níveis dos rios e as alterações dos ciclos naturais já afetam a segurança hídrica, alimentar e humana de diversas populações amazônicas.

Ao abordar os caminhos possíveis para enfrentar esse cenário, Arnaldo defendeu a implementação de políticas públicas estruturantes e estratégias de adaptação climática capazes de responder à escala dos desafios atuais, considerando a diversidade dos povos, territórios e formas de vida existentes na Amazônia.

A Amazônia não é um sistema isolado, seu colapso impactaria o mundo inteiro. Defender seus povos, territórios e rios é agir no centro da crise climática global. – Arnaldo Carneiro (ORA)

A conversa também trouxe reflexões sobre a relação entre saúde, clima e conservação. Putira Sacuena, Secretária-Adjunta da SESAI, estava presente e foi convidada no momento para contribuir com a roda de saberes. destacou a importância do fortalecimento das medicinas indígenas e lembrou que não é possível falar sobre sistemas tradicionais de cuidado sem proteger a água, as florestas e as plantas medicinais que sustentam esses conhecimentos.

Para a liderança, defender os territórios significa também proteger os pajés, as parteiras e os demais guardiões dos saberes indígenas. Putira ressaltou ainda que existem diferentes formas de cuidar da saúde e do bem-viver e que o reconhecimento das medicinas indígenas passa não apenas pela validação externa, mas pelo fortalecimento desses conhecimentos dentro dos próprios territórios.

Proteger os territórios também é proteger as medicinas indígenas e os sistemas de cuidado que ajudam a sustentar a vida na Amazônia. – Putira Sacuena (SESAI)

Um dos momentos mais celebrados pelo público foi a menção ao primeiro programa de medicinas indígenas do Brasil, iniciativa considerada um marco para o fortalecimento e o reconhecimento dos sistemas indígenas de cuidado.

A plateia era diversa, reunindo lideranças indígenas, representantes de organizações da sociedade civil, estudantes e movimentos sociais. Foto: Ronald Kokama/Acervo ACT-Brasil

Diálogos que se encontram  

Ao longo da roda de saberes, os participantes convergiram para uma mesma compreensão: enfrentar as emergências climáticas exige fortalecer os territórios, valorizar os conhecimentos tradicionais, ampliar a participação dos povos indígenas na formulação de políticas públicas e reconhecer a diversidade de soluções já existentes na Amazônia. 

A conservação biocultural reconhece que proteger a natureza também é proteger os povos, os conhecimentos e os territórios. Precisamos transformar esse entendimento em ação coletiva. – Luiz Claudio Silva (Diretor executivo da ACT-Brasil)

Ao aproximar diferentes formas de produzir conhecimento, o Ecos Bioculturais reforçou a importância do diálogo entre saberes para enfrentar as emergências climáticas e construir alternativas que conciliem conservação, justiça socioambiental e defesa dos modos de vida amazônicos. 

Três décadas de conservação biocultural 

O evento também marcou a celebração dos 30 anos de atuação da Amazon Conservation Team (ACT), organização que desenvolve ações em parceria com povos indígenas e povos e comunidades tradicionais para a proteção das florestas tropicais e o fortalecimento da conservação biocultural em diferentes países da América Latina. 

A celebração ofereceu o pano de fundo para as discussões da noite. Ao longo de três décadas, a ACT tem atuado ao lado de povos indígenas e povos e comunidades tradicionais na construção de iniciativas voltadas à proteção dos territórios, ao fortalecimento cultural e à valorização dos conhecimentos tradicionais como parte das estratégias de conservação. 

Como parte da programação, foi exibido o curta-metragem “Conservação Biocultural na Amazônia”, que apresenta a trajetória da organização e destaca a parceria construída com povos amazônicos ao longo desses 30 anos. 

O evento também contou com a presença da cofundadora da ACT, Liliana Madrigal, que reafirmou o compromisso da organização com o futuro da floresta e com a construção de soluções baseadas na parceria, no respeito aos territórios e na valorização dos conhecimentos locais. 

A ACT nasceu da convicção de que não é possível conservar a Amazônia sem reconhecer os direitos, os conhecimentos e o protagonismo dos povos indígenas. Trinta anos depois, seguimos construindo esse caminho em parceria com os territórios. – Liliana Madrigal (ACT)

Liliana MadrigaL, cofundadora da ACT, é homenageada durante o evento. Foto: Ronald Kokama/Acervo ACT-Brasil

Histórias que fortalecem territórios  

O público também acompanhou o lançamento da quarta edição da revista Wanaki, publicação da ACT-Brasil dedicada a temas relacionados à conservação, cultura, memória e territórios amazônicos. A nova edição reúne reflexões, histórias e experiências que atravessam os 30 anos de atuação da organização, reforçando a centralidade dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na construção de caminhos para a conservação biocultural.

Para a presidente do Conselho Diretor da ACT-Brasil, Sandra Charity, a revista é a materialização das histórias apoiadas. Ela reúne os esforços pela construção e proteção de uma Amazônia diversa e baseada nos saberes dos povos.

A Wanaki é fruto de um trabalho coletivo de sistematizar histórias e vivências que apoiam o protagonismo dos povos. Ela documenta e é memória para o trabalho de parceria entre a ACT e os povos indígenas e os povos e comunidades tradicionais. – Sandra Charity (ACT-Brasil)

Confira aqui a IV edição da revista Wanaki

Foto: Ronald Kokama/Acervo ACT-Brasil

Os ecos continuam  

Encerrando a programação, a apresentação do DJ Mazin Yikuna, do povo Tikuna (AM), trouxe ao encontro expressões da produção cultural indígena contemporânea, reforçando que a conservação da Amazônia também passa pela valorização das identidades, das memórias e das múltiplas formas de expressão de seus povos. 

As músicas indígenas são uma forma de manifestação em defesa dos territórios e das culturas indígenas. Elas carregam as vozes da floresta e dos povos que nela vivem, sensibilizando para a importância de uma defesa coletiva da Amazônia. As músicas indígenas vão além da expressão artística: são instrumentos de resistência, identidade e mobilização em defesa da floresta. – DJ Mazin Yikuna 

O Ecos Bioculturais foi um canto coletivo formado por diferentes vozes em defesa da Amazônia. Uma defesa que, como ecoou ao longo do encontro, passa também pela proteção dos povos, dos territórios e dos modos de vida que mantêm a floresta viva. 

O evento revelou a riqueza dos saberes que nascem dos rios, do solo, das plantas e das árvores deste bioma, mostrando que a Amazônia é também um território de conhecimentos, aprendizados e soluções para os desafios do presente. 

Marcado pela escuta, pelas trocas e pela construção de pontes entre diferentes perspectivas, o dia 2 de junho reafirmou a importância de reconhecer e fortalecer os saberes cultivados há gerações pelos povos da Amazônia. 

De forma coletiva, o Ecos Bioculturais apontou para um caminho de futuro: uma Amazônia equilibrada, com seus povos, territórios e conhecimentos valorizados, em sintonia com uma sociedade mais justa, diversa e inclusiva. Afinal, muitas das soluções que buscamos para enfrentar as emergências climáticas já existem, e a sociedade tem muito a aprender ao escutar as vozes da floresta. 

Encontros e trocas traduziram o evento como um momento coletivo. Foto: Ronald Kokama/Acervo ACT-Brasil

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